Vampiros no Cinema - Algumas obras de referência

Apesar de uma série de curtas-metragens europeus do início do século passado, o primeiro filme de vampiro realmente importante foi Nosferatu (1922) de F.W. Murnau, um dos principais nomes do expressionismo alemão. A história segue o livro de Bram Stoker (Drácula), com algumas alterações destinadas a contornar problemas de direitos autorais. O nome do Conde passa a ser Orlock e a ação é deslocada no tempo e no espaço, da Inglaterra de 1897 para a Bremem alemã de 1938. Orlock, na figura do ator Max Schereck, não tem nada de sedutor. Um zumbi corcunda, esquelético e careca, com orelhas pontudas e cara de rato, dentes incisivos (e não caninos) afiados, dedos longos e ossudos, e um infernal apetite por aranhas e moscas. Um monstro absolutamente repulsivo e angustiado, condenado a viver do sangue de suas vítimas sem conhecer a morte nem o amor.

No final da década de 30, em uma substituição de última hora no elenco, produtores de um novo filme não tiveram escolha senão a de chamar um ator húngaro, da Broadway, que atuara em uma adaptação do livro de Stoker para os palcos: Bela Lugosi. Ator de formação shakespeariana, ele não só tinha o sotaque húngaro e a postura de nobre europeu, como doou à personagem uma aura sexual dominadora e uma fina ironia. Drácula achara finalmente seu rosto. Lugosi ascendeu à estrela principal do estúdio, repetindo algumas vezes a personagem e tendo como grande sucesso The mark of the vampire ( 1935 ).

Dirigido por Terence Fisher, com Christopher Lee no papel do Conde e Peter Cushing no de Van Helsing, The horror of Drácula ( 1958 ) redefiniu o cinema de vampiro, estabelecendo um estilo que dominaria o mercado até os anos 70. Lentes de contato amarelas e vermelhas acentuavam as feições sobre-humanas, desfiguradas na perseguição de donzelas decotadíssimas ou com camisolas semitransparentes. O sangue não só escorria dos caninos e feridas no pescoço como jorrava quando o Conde tinha o coração atravessado por uma estaca. Sexo e violência garantiam o apelo nas bilheterias. E na memória do público da geração pós-Lugosi, Mr. Lee é que está gravado como o Drácula definitivo.

Apesar de nunca ter gerado um ícone como Bela Lugosi ou Christopher Lee, o filão das vampiras lésbicas ganhou o estímulo necessário com a liberação sexual dos anos 60 e deu à luz dezenas de ressurreições da Condessa Bathory e da Carmilla de Le Fanu, muitas delas atravessando a fronteira do pornô softcore.

Uma outra vertente vampiresca é o da paródia. Muitos filmes foram produzidos no sentido de brincar com os vampiros. Eram gozadores incorrigíveis interessados em extrair até a última gargalhada da exploração erótica do vampiro no cinema. Um dos marcos desta proposta é A dança dos vampiros ( 1967 ). Está longe de ser uma das principais criações de Roman Polanski, mas tem Sharon Tate incendiando a libido coletiva e algumas figuras divertidíssimas como vampiros gay e judeus – contra os quais a cruz não faz efeito.

Depois de uma queda, o gênero voltou a respirar com uma boa aposta em um humor suave do Conde gay interpretado por George Hamilton em Amor à primeira mordida ( 1979 ), que antecipa o sucesso de A hora do espanto ( 1985 ), com Chris Sarandon sendo um vampiro que sai à caça assobiando “Strangers in the night”. Já Os garotos perdidos (1987) de Joel Schumacher atualiza o mito para a geração MTV em grande estilo: pitadas de romance, aventura e rock'n roll. Tudo isso injetando um pouco de Peter Pan e Juventude transviada no espírito vampiresco. Mas o melhor da década está na adaptação de Fome de viver, com David Bowie e Catherine Deneuve fazendo o casal de vampiros mais chique da história. Da abertura, com o grupo Bauhaus tocando “Bela Lugosi's dead” em um nightclub novaiorquino, ao elegantíssimo apuro visual de sua fotografia e cenários, o filme tem todos os elementos para ser considerado um cult.

Nos anos 90, surge a principal adaptação do livro de Bram Stoker dos últimos tempos: Drácula (1992) dirigido magistralmente por Francis Ford Coppola. Na tela grande, o filme evoca uma sensação de um estranho sonho. O diretor criou um filme arrojado, fora dos padrões de Hollywood, a partir de uma determinação tradicionalista: ele só aceitou fazer um Drácula quando lhe foi oferecido um script fiel aos acontecimentos e aos personagens dos escritos de Stoker. Mas no roteiro, temos uma inovação. O objeto de desejo de Drácula, a jovem inglesa Mina, seria uma reencarnação de Elizabetha, 400 anos mais tarde. E a jornada do vampiro resultaria de uma jornada contra o Deus que lhe negou apoio na hora de sua maior necessidade.

Dois anos mais tarde, em 1994, surge outro filme muito esperado: a adaptação de Entrevista com o vampiro para o cinema. Como definiu o diretor Neil Jordan, o filme é a “história de uma família profundamente desajustada: os vampiros Lestat e seu ‘filho/amante' Louis e a ‘filha' destes, a vampira mirim Claudia”. Essa saga de amor e sangue vivida pelos três vem à tona 200 anos depois de seu início em New Orleans, quando Louis decide relembrá-la a um jornalista.

Assim como os vampiros possuem uma sede interminável de sangue, o público tem sede de vampiros. E aguarda outros grandes filmes sobre este personagem tão enigmático e multifacetado.

Por Elidio Jr.