Quando o leite e sangue se tocam suavemente – O pano de fundo dessa narrativa remete aos ataques do PCC que aterrorizaram São Paulo escancarando a violência urbana e a impotência da sociedade ante tamanha barbárie e vandalismo: as pessoas mortas violentamente, carros e ônibus incendiados por toda à parte. A instauração do pânico. Entretanto, o filme de Bianchi trata do tema sem apelar para soluções fáceis, é violento sem ser sanguinário. Prefere focar na violência psicológica, traço recorrente em seus filmes, e é o personagem Valter (Marat Descartes) o ponto fulcral desse viés na trama. Valter, pacato e exemplar pai de família, acredita que a vida pode valer a pena apesar de todas as adversidades que cercam o lugar em que mora, afinal, ali, também mora a sua história. Sua aparente fragilidade revela , ao longo do filme, um homem sensível e observador que não deixa corromper, ao contrário do vizinho Dimas, interpretado pelo experiente Umberto Magnani. O comportamento do protagonista incomoda a esposa Iara, Ana Carbatti, num forçado sotaque paulistano, que acredita que a violência se combate com mais violência. O Valter estudante é quem dá fôlego ao Valter chefe de família parar o enfrentamento daquele cotidiano cruel e sem suspensão, ele vê na escola a possibilidade de se pensar a vida de uma outra maneira. Os poemas recitados e comentados pela professora de português, na pele da atriz Cássia Kiss numa atuação digníssima e verdadeira. Despertam nele uma consciência crítica, dura, mas é a que ele pode ter naquele momento sem que pareça ser frouxo; já o professor de matemática, interpretado pelo ator Fernando Alves Pinto, prefere colocar panos quentes nas intervenções do aluno Evandro (Caio Blat), deixando entrever que é melhor não dizer nada e não dizer nada é dizer sim ao sistema. O barulho dos inquilinos é a metáfora de quem pode mais, de quem manda. È a tortura, o caos social que, outrora, foi representado pelo silêncio durante o regime milita. Notável a representação do cotidiano filmada por Bianchi: incômoda, indigesta e igualmente violenta. O tempo é implacável tal como o barulho daqueles vizinhos arruaceiros, “os objetos mal redimidos da noite”. A oportuna trilha sonora instaura o clima pretendido pelo direito, o réquiem sela o tom de finitude de coisas e pessoas, porém, com a aurora nasce um outro dia e já é diferente. Na batalha de olho por olho, dente por dente pode-se cegar a sociedade. Vida que segue.
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Este filme é um soco no
Este filme é um soco no estômago de uma paulistano periférico. O tratamento da violência que assombra a segurança da família é um labirinto sem saída. Não se trata de uma violência física, mas sim da informação sobre ela e como isso se torna tormentos na vida de uma pessoa honesta.
Fabio