Corpo Elétrico e a convivência na diversidade

Depois de realizar uma série de documentários e curtas de ficção associados ao universo LGBT, o jovem diretor Marcelo Caetano teve a oportunidade de desenvolver a temática no seu primeiro longa metragem. Muito além do habitual argumento sobre um rapaz que larga a família no nordeste para tentar a vida em São Paulo, Corpo Elétrico apresenta o cotidiano solitário dividido entre o trabalho e a distração no tempo que lhe sobra.

Corpo Elétrico - Elias e Wellington
Curtição de Elias e Wellington fora do horário de expediente

Se tratando de projeto autoral, sem se prender a uma narrativa clássica, a produção confirma sua autonomia na seleção do elenco mais próximo de sua proposta, do qual se destaca na estréia do paraibano Kelner Macêdo como sonhador Elias, cuja dedicação ao trabalho vem de seu gosto pela costura, e de seu fiel escudeiro de aventuras Wellington, interpretado por Lucas Andrade, de quem já não suporta a idéia de ser operário durante o dia por pensar em viver de suas performances como drag queen à noite. Não somente os protagonistas, cada personagem carrega consigo seus pesares contemporâneos discutidos atenciosamente numa fábrica de roupas da José Paulino.

Corpo Elétrico - Elias na José Paulino
Elias pela rua José Paulino num típico dia chuvoso da cidade

Elias mistura a vida com sonhos e realidade na procura de saciar seus desejos enquanto vaga por relacionamentos homoafetivos. Alguns deles até têm a intenção romântica, e de certa forma certos planos chegam lembrar Felizes Juntos (1997) de Kar-Wai, mas o conjunto se dispersa nas escolhas efêmeras. Profissionalmente, tem anseios semelhantes aos de Iremar em Boi Neon (2015), pois ambos, apesar das condições sociais desfavoráveis, almejam viver de suas criações no mundo da moda. De qualquer forma, no caso de Elias, é preferível acreditar que seja muito jovem para não ter perspectivas de futuro a dar ouvidos aos conselhos do chefe.

Corpo Elétrico - Elias na conversa de bar
Conversa de bar com Fernando

Por outro lado, há a responsabilidade do refugiado Fernando na obrigação de se manter trabalhando para que possa enviar dinheiro à sua família na Guiné-Bissau. Ao seguir os caminhos de Era O Hotel Cambridge (2016), porém com menor profundidade, somos levados a perceber que a sobrevivência por meio da imigração está mais próxima que imaginamos. Não obstante, aproveitando as recentes e polêmicas decisões políticas do país, o foco é mais intenso sobre as circunstâncias dos trabalhadores ao suportar longas jornadas de ofício. Se parte do enredo incomoda com repentinas cenas de desaforo trabalhista, de outro modo os prejudicados dão-se um jeito de se divertir e encarar a vida a ser comemorada.

Corpo Elétrico - Fernando na conversa de bar
Conversa de bar com Elias

Num cenário paulistano, onde papéis tão diferentes se confrontam a todo tempo, ainda há espaço para discutir o contraste social entre empregados e a figura do empregador, preocupado em atingir as metas da empresa, mesmo que elas não sejam as verdadeiras diretrizes da maioria envolvida. Tal qual os últimos filmes de Anna Muylaert, a afronta neste ponto é mordaz, principalmente quando vindas de intérpretes chaves, como na participação de Ronaldo Serruya e Daniela Nefussi numa espécie de extensão à dona Débora de Que Horas Ela Volta? (2015).

Corpo Elétrico - Trabalhadores
"Prontos" para mais um longo dia de trabalho

Como nem tudo desigual causa confronto, o que torna o filme mais especial é a visão positiva sobre as diferenças. Mesmo com a discriminação à opção sexual presente, e até mesmo às mulheres, da qual nem causa grande impacto, o que prevalece é o convívio harmonioso dos personagens. Exemplo disso são as drags, interpretadas por ninguém mesmo que elas mesmas, contempladas além do caricato, nos bastidores, onde discutem valores éticos entre si, criam suas famílias e interagem com empatia aos que estão em volta.

Corpo Elétrico - Drag Queens prontas para o trabalho
Prontas para mais uma noite de trabalho

Ainda que esteja longe de ser uma obra-prima cinematográfica, talvez Corpo Elétrico seja um indício para que Marcelo Caetano continue a retratar os movimentos da diversidade pelas ruas da cidade. Apesar dos tempos cinza, demonstrações como esta servem para clarear junto às mudanças otimistas na sociedade. São pequenos retratos de gente, do jeito que são, com qualidades e defeitos. Não importa a raça, gênero, cultura ou classe. É apenas uma película de histórias humanas.

Por onde Corpo Elétrico anda em São Paulo

  • Título original:   Corpo Elétrico
  • Diretor:   Marcelo Caetano
  • País:   Brasil
  • Categoria:   Drama
  • Ano:   2017
  • Atores:   Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ana Flavia Cavalcanti, Ronaldo Serruya, Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada, Henrique Zanoni, Evandro Cavalcante, Nash Laila, Georgina Castro, Dani Nefussi, Ernani Sanchez, Rodrigo Andreolli, Daniel Torres

Sinopse:   Elias (Kelner Macêdo) é o jovem criador de uma fábrica de confecção roupas no centro de São Paulo. Ele mantém pouco contato com a família na Paraíba, e passa seus dias entre o trabalho e os encontros com outros homens. Enquanto reflete sobre as possibilidades de futuro, começa a ficar cada vez mais próximo dos colegas da fábrica, e vê os amigos seguirem caminhos diferentes dos seus.

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