Vingança: a face do engano - A vendeta(vingança) é um código de honra que remonta ao feudalismo do período medieval, a tragédia grega e que serviu de modelo para várias situações, desde disputa de terras até por liderança entre famílias mafiosas.
A adaptação do livro do escritor albanês, radicado na França, Ismail Kadaré para o cinema, foi primorosa e sobretudo criativa. Trazer para o sertão da Bahia a paisagem inóspita da Albânia, singular e fria, revelou a universalidade do tema.
Walter Salles mostra a disputa de terras entre duas famílias: os Ferrereira e os Breves. Inácio, irmão mais velho do protagonista Tonho, vivido pelo ator Rodrigo Santoro, é assassinado. Tonho é impelido pelo pai (José Dummont) a cobrar o sangue da família que matou seu irmão. Mateus, vivido pelo ator Wagner Moura, é o algoz da família Ferreira.
Os pais de Tonho são a encarnação mais profunda da dor, da perda numa impressionante atuação dos atores José Dummont e Rita Assemany.
A representação do código é dada pela camisa do morto, manchada de sangue, que fica coarando no varal, quando o sangue amarela é hora de matar alguém da família inimiga e, na medida que a família vinga seu morto é colocado no braço do próximo vingador uma tarja preta. O prazo é até a próxima lua.
O V de vingança está por toda a parte: na bifurcação que leva à fazenda inimiga e à cidade de Ventura, quando Clara arranca a tarja de luto do braço de Tonho e a joga no chão, na palavra Ventura que, ironicamente, siginifica destino favorável, sorte.
Tanto Tonho e, sobretudo seu irmão caçula Pacu (vivido pelo excelente ator mirim Ravi Ramos Lacerda) do seu modo, não acreditam que a vingança leve a algum lugar. Mas a tradição é imposta e não pode ser quebrada. É a representação do poder. "O pai disse que é olho por olho. E foi olho de um por olho de outro. Olho de um por olho de outro, que todo mundo acabou ficando cego. Em terra de cego, quem tem um olho só, todo mundo acha que é doido", diz Pacu no início do filme.
Aquele lugarejo, o Riacho das almas, que não tem mais água e as almas são verdadeiros zumbis, reflete a ausência de quase tudo. É como se a vendeta fosse a única possibilidade de ocupar o tempo. Tempo que se observa metaforicamente no giro da roda que mói a cana para fazer a rapadura, nas suas engrenagens, como uma ampulheta ou na fala do personagem cego que diz a Tonho que cada minuto é mais um, mais um, mais um..., no caso de Tonho é menos um, menos um, menos um... A vida que lhe resta é quase nada.
Os personagens de Luis Carlos Vasconcelos e Flávia Marco Antonio representam o contraponto de uma narrativa violenta, é quando Tonho e Pacu conhecem a fantasia e o amor numa perspectiva fabulística. Salustiano (Luis Carlos) e Clara (Flávia) são artistas de um circo mambembe que, quase literalmente, levam luz e esperança àqueles lugarejos esquecidos por Deus. Tonho enamora-se de Clara e entregam-se durante uma noite rara de chuva , Pacu veste-se com as roupas do irmão e então dá-se o rito de passagem do menino iniciado com o livro dado a ele por Clara.
Por fim, Abril despedaçado é um filme em que a intolerância cega, a falta de paz são elementos cada vez mais encalcados no homem, numa visível perspectiva de desesperança. Mas sempre haverá uma noite rara de chuva e um olhar emblemático para o mar que esconde a sereia de cada um de nós, a fantasia, o espírito de renovação.
- Título original: Abril Despedaçado
- Diretor: Walter Salles
- País: Brasil
- Categoria: Drama
- Ano: 2001
- Atores: José Dumont, Rodrigo Santoro, Rita Assemany, Ravi Ramos Lacerda, Luiz Carlos Vasconcelos, Flavia Marco Antonio, Everaldo De Souza Pontes, Caio Junqueira, Mariana Loureiro, Servilio De Holanda, Wagner Moura, Othon Bastos, Gero Camilo, Vinícius de Oliveira, Soia Lira
- Avaliação: 10.0
- Site oficial: http://www.abrildespedacado.com.br/
Sinopse: Abril 1910 – Na geografia desértica do sertão brasileiro, uma camisa manchada de sangue balança com o vento. Tonho (Rodrigo Santoro), filho do meio da família Breves, é impelido pelo pai (José Dumont) a vingar a morte do seu irmão mais velho, vítima de uma luta ancestral entre famílias pela posse da terra. Se cumprir sua missão, Tonho sabe que sua vida ficará partida em dois: os 20 anos que ele já viveu, e o pouco tempo que lhe restará para viver. Ele será então perseguido por um membro da família rival, como dita o código da vingança da região. Angustiado pela perspectiva da morte e instigado pelo seu irmão menor, Pacu (Ravi Ramos Lacerda), Tonho começa a questionar a lógica da violência e da traição. É quando dois artistas de um pequeno circo itinerante cruzam o seu caminho.






