A palavra terapia vem do grego therapeía , que significa tratamento. O termo tem sido amplamente utilizado: aromaterapia, musicoterapia, terapia com cristais, psicoterapia e assim por diante. Portanto me parece absolutamente válida a idéia de uma “cinematerapia”, com o mesmo intuito de qualquer outra terapia que é justamente curar.
Remédios, exercícios e técnicas são diariamente utilizados a fim de melhorar a vida do ser humano. Mas há de se notar que todo o remédio mal administrado também pode trazer severas conseqüências. A música é considerada a arte mais pura dentre todas. Uma sinfonia de Beethoven, um noturno de Chopin, uma ária de ópera ou canção de uma banda de rock podem literalmente mudar o estado emocional de uma pessoa. Da mesma maneira, um filme tem grande poder de induzir a certos estados emocionais, e nem sempre os mais saudáveis. Um filme pode ter efeito devastador sobre um espectador desavisado. Na dose errada, aquilo que poderia ser um remédio se torna uma tempestade emocional. E a força das imagens, ligadas à sonoplastia e aos diálogos atinge a todos, em intensidade diferente, mas de uma forma ou de outra existe uma resposta do público.
Existe um consenso no que tange ao malefício dos sentimentos reprimidos, e neste sentido o melhor caminho é liberá-los e assim se ver longe e virtualmente livre deles. Portanto quando alguém procura filmes violentos, ou filmes de ação com cenas de violência, pode estar através destes filmes, se purificando. O filósofo Aristóteles chamava isto de catarse. Na antiguidade grega, este filósofo chegava a recomendar que as pessoas assistissem às tragédias gregas nos teatros, pois quando o público vivenciava todas as dores, sofrimentos e horrores do herói grego, estava também se purgando; liberando suas próprias dores. Então o público saía do teatro aliviado.
Mas o filme pode ser também uma explosão de prazer intenso, que tanto pode estar presente numa comédia ingênua da década de cinqüenta, quanto em filmes como O Senhor dos Anéis ou Batman , e assim por diante. O filme tem ainda a possibilidade de fazer com que o espectador entre em estados alterados, entre em êxtase, possa meditar assistindo-o. Um exemplo deste gênero de filme que nos coloca quase em transe, é a Trilogia QATSI , de Godfrey Reggio, composta por: Koyaanisqatsi, Powaqqatsi, Naqoyqatsi . Outro exemplo é 2001: A Space Odyssey .
Há também filmes que podem causar verdadeiros traumas. Não é raro você ler ou escutar alguém dizer que levou o choque de sua vida ao assistir filmes como: Irreversível, Hannibal Lecter, A Escolha de Sofia, etc. No entanto, aquilo que choca tremendamente um, simplesmente não diz nada ao outro. O que move o ser humano? Por que, depois de tantos anos, as pessoas ainda reagem com horror à cena de Um Cão Andaluz em que Buñuel corta o olho da mulher com uma navalha? Em alguns o horror é intenso, e em outros não há nenhuma reação. Isto faz com que cheguemos à simples conclusão de que nossas lembranças, nosso arquivo pessoal nos faz reagir desta ou daquela forma diante desta ou daquela cena.
Dado filme ou cena específica, ou ainda uma personagem podem ajudar a resolver questões emocionais escondidas, reprimidas e de difícil acesso. Uma cena ou diálogo pode desencadear traumas e também libertar espectadores de repressões com as quais ele vinha lutando. Também podem dar ao espectador verdadeiros momentos de pura iluminação, como se portas trancadas do inconsciente se abrissem; como se amarras se desfizessem. Existe portanto uma liberação. No entanto nossa mente funciona como a memória de um computador. Se você adicionar um arquivo com vírus ao seu computador, ele poderá causar danos à máquina. Da mesma forma se você adicionar imagens destrutivas e perturbadoras ao seu cérebro e não tiver condições de lidar com elas, também pode causar danos a si. A diferença é que um arquivo de computador pode ser deletado, mas uma memória no cérebro nem sempre é esquecida. Portanto é interessante que o espectador seja sempre seletivo, e escolha aquilo que pretende armazenar em sua mente. Não se deixe levar pelo turbilhão de imagens. Escolha apenas aquilo que realmente quer assistir. Imagens cinematográficas têm um poder titânico, e como tal, tanto pode erguer pontes, quanto pode destroçar templos. Neste caso, o templo em questão é a sua mente.
Texto original por: Léo – abril de 2006 (todos os direitos deste texto pertencem ao autor, e não deve ser utilizado ou citado sem sua permissão).