Às vezes quando termino um filme, procuro saber quais referências foram necessárias pra sua criação. Considerando que o roteiro é um embrião da produção cinematográfica, ele pode ser escrito através de uma idéia original do roteirista ou de um vasto conteúdo temático que vai desde um simples jogo eletrônico até uma biografia importante. Não vejo como classificar quais dessas duas formas tem seu grau de importância, pois a qualidade depende muito de como o trabalho é realizado. Um exemplo disso são os longas feitos a partir de literaturas de grande sucesso que por sua vez podem ser baseadas na história da vida qualquer. Recentemente percebi esta transição de mídias ao ler o livro Feliz Ano Velho escrito por Marcelo Rubens Paiva nos anos oitenta, do qual me incentivou a conferir sua versão homônima para cinema dirigida por Roberto Gervitz em 1987. Desconsiderando a crítica sobre o que foi visto, a experiência foi bem interessante para analisar um mesmo personagem por mais de uma maneira. O crítico Marcelo escreveu uma ficção baseada em sua vida após ter sofrido um acidente que o tornou paralítico.Levando em conta que o texto não é uma autobiografia, o Marcelo personagem é uma figura que tem medo do seu futuro como inválido, mas aparenta otimismo quando acolhido pela família. Já o Mário, mesmo personagem interpretado por Marcos Breda no longa, apresenta um lado mais sensível e eufórico descrito apenas nos comentários introspectivos do anterior. Por quase duas horas de filme, o enredo se desprende da linearidade temporal proposta pelo livro com a finalidade de ter mais dinamicidade a ponto de atingir tanto o público leitor como aquele que não conhece a obra adaptada. Considerando que Paiva também é responsável pelo roteiro, é através dele que o autor tem a segunda oportunidade de mexer em sua ficção ao desenvolver alguns personagens, incluir novos outros e até mesmo dar maior destaque em certos pontos de sua vida retratada. Enfim, essa breve situação serviu para que eu pudesse perceber que, assim como os trabalhos de Marcelo, muitas outras produções valem ser exploradas pelas suas variadas versões de uma história, mesmo que sejam no ponto de vista da mesma pessoa. Nada como comparar suas características.
Me lembrei um dia que zapiava a TV quando garoto até parar em um canal aberto que exibia O Grande Ditador (1940). Naquela época já tinha visto vários filmes do Chaplin, principalmente Tempos Modernos por causa da escola, porém não tinha dado muita atenção a ele até naquele instante em que vi uma de minhas cenas mais impressionantes: um discurso enérgico de um barbeiro judeu fingindo ser um ditador. Logo pensei que este gênio teve muita coragem de “soltar o verbo” de uma forma tão emocionante naquela época turbulenta.
Na segunda semana de 2012 resolvi fazer a famosa lista dos 10 melhores filmes do ano passado depois de perceber uma certa familiaridade com as opiniões de outros cinéfilos. È claro que se trata de uma relação que sempre vai ter os mesmos filmes com uma pequena variação na colocação entre eles, porém, resolvi me desprender um pouco do padrão pra refletir quais deles me tirou do sério. A maioria foi escalada por aqueles que realmente me intrigou a ponto de pensar por horas sobre seus fragmentos na grande tela. Foi um ano ótimo para se emocionar e principalmente aprender, não somente por questões técnicas muito bem trabalhadas, mas como também a criatividade deste conjunto de criadores respresentantes do cinema contemporâneo.
1. CÓPIA FIEL - Abbas Kiarostami - França 2. MEDIANERAS: BUENOS AIRES DA ERA DO AMOR DIGITAL - Gustavo Taretto - Argentina 3. INCÊNDIOS - Denis Villeneuve - Canadá 4. MELANCOLIA - Lars von Trier - Dinamarca 5. CISNE NEGRO -Darren Aronofsky - USA 6. O MÁGICO - Sylvain Chomet - França 7. NAMORADOS PARA SEMPRE - Derek Cianfrance - USA 8. A PELE QUE HABITO - Pedro Almodóvar - Espanha 9. A ÁRVORE DA VIDA - The Tree of Life. Terrence Malick - USA 10. NÃO ME ABANDONE JAMAIS - Mark Romanek - Reino Unido
Como fazer uma lista que consolida muitas produções lançadas e não parecer tão injusto pra mim, resolvi quebrar certos paradigmas (alguns amigos indicaram fazer para inovar) e a estendi com mais seis filmes que não poderiam ser desconsiderados:
11. TRABALHAR CANSA - Juliana Rojas, Marco Dutra - Brasil 12. O PALHAÇO - Selton Mello - Brasil 13. BIUTIFUL - Alejandro González Iñárritu - México 14. O GAROTO DA BICICLETA - Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne - Bélgica) 15. O PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM - Rupert Wyatt - USA 16. SUPER 8 - J.J. Abrams - USA
Um dia percebi que existem pessoas comuns que usam sua imaginação para escrever contos baseados em diversas mídias de entretenimento como quadrinhos, literatura, games e cinema. O que mais impressionou neste trabalho conhecido como fanfiction, é a quantidade de textos existentes sobre os mais variados filmes já lançados! A princípio pode achar mais evidente que existam muitos fãs de Stars Wars que faça todos os tipos de mídias inspiradas na obra de George Lucas, mas de acordo com a lista do site fanfiction.net, que é o maior repositório de fanfictions na rede, existem das mais variadas postagens, não somente de ficção científica como também de clássicos como Cidadão Kane. Eles conseguem expandir este mundo criado pelo cinema e usam seus personagens para desenvolver histórias paralelas que deixariam qualquer roteirista hollywoodiano com inveja. Vale apena dar uma olhada em pelo menos uma dessas criativas expressões dos fãs escritores, assim como nós, e treinar seu inglês lendo algo que gosta.
Recentemente li o livro Num Piscar de Olhos do montador e editor de som Walter Murch, do qual ele fala sobre sua experiência na edição durante as ultimas décadas. O que me despertou o interesse por este assunto mais técnico foi uma palestra presenciada ha meses atrás e que me deu várias referencias no assunto como esta. Meu ponto de vista mudou bastante sobre este trabalho ao considerá-lo como fundamental para um sucesso de um filme. É como se o editor fosse responsável por um novo ponto de vista sobre todo o material coletado pelo diretor, e a partir dali, usa sua experiência para criar o ritmo na história de forma precisa para cada frame analisado. O ponto mais interessante do editor, vencedor do Oscar por Apocalipse Now e O paciente Inglês, é sua transição de ferramentas analógicas, como a saudosa moviola, para os softwares avançados nos dias atuais Avid e Final Cut. Recomendo a leitura para aqueles que querem saber um pouco mais sobre a pos-produção de um longa. Logo irá perceber que seu grau de importância é tão grande quanto imagina. Além disso, percebera o quanto este trabalho evoluiu com os anos a ponto de estimular nossa persepção sobre aquilo que assistimos de ontem, hoje e sempre.
Título Num Piscar De Olhos Subtítulo A EDIÇAO DE FILMES SOB A OTICA DE UM MESTRE ISBN 8571107823 Editora Jorge Zahar Ano 2004
Um dia um amigo me indicou um curta de animação feito pelos estúdios Disney que se baseia em Salvador Dalí. Me parece que o próprio artista chegou a trabalhar com Walt Disney para compor uma obra em movimento, mas este, por incrível que pareça, foi produzido no ano de 2003.Também tem a mesma linha perdida de Fantasia, em que vemos arte visual em parceria com a música, mas o que achei interessante é a possibilidade de se aprender as artes plásticas através de outros meios convencionais dos dias de hoje. É muito gratificante ver a beleza do surrealismo no momento em que as animações estão mais focadas no mundo 3D.
Depois de muito tempo escrevendo sobre os filmes da maneira formal decidi criar um espaço onde pudesse dizer o que acho de cinema sem me preocupar se a oração é subordinada adverbial (se é que me lembro disso). Aqui sei que posso postar algumas dicas ou comentários de maneira livre, com muito mais de 140 caracteres, e de certa forma seja interessante de divulgar às outras pessoas que também gostam tão quanto eu desta arte. Espero que a experiência seja produtiva e que principalmente vocês passem por aqui de vez em quando.
Esta semana o Estado de São Paulo publicou no caderno Link uma matéria sobre um curta animação feito através de um software de licença aberta que obteve sucesso depois de ser baixado por dois milhões de pessoas via Internet. Basicamente o objetivo do curta era a criação de um software de animação em 3D que fosse possível criar ambientes tão bons quanto os de famosas animações de cinema de uma maneira que fosse simples de se aprender e que todos pudessem colaborar. De acordo com especialistas de ensino na área, o software obtém um resultado positivo com relação aos níveis de detalhes, como na criação de fios de cabelo, gramas, solo, arvores e etc, mas o software responsável pela animação Big Buck Bunny ainda necessita de ser aprendido através de tutoriais mais avançados, pois pessoas mais leigas precisam de mais técnica para realizar um trabalho de qualidade. Para uma visão cinematográfica, isto seria uma forma independente de espectadores poderem interagir entre si na criação de algo com qualidade e distribuir seu resultado para qualquer um pela rede. Através do software de código aberto Blender , é necessário apenas que os usuários tenham apenas um simples desktop para realizar um projeto, além de ter a grande vantagem de compartilhar o trabalho com outras pessoas do mundo que também tem a intenção de produzir animações mesmo não sendo profissionais na área. Para criação de 10 minutos do curta Big Buck , foram necessários apenas 7 pessoas que se destacaram na comunidade em torno deste programa que cada vez mais vem criando novas animações. Talvez a maior preocupação para quem faz parte da criação das animações seja simplesmente aquilo em que o software não consegue alcançar como roteiros e áudio, por exemplo, mas mesmo assim já é um grande avanço para explorar novos conceitos de colaboração 2.0 em que este projeto proporciona. A evolução da tecnologia também focada ao cinema proporcionando a criação de formas alternativas de entretenimento também faz nos pensar sobre o futuro da industria cinematográfica e sua a preocupação com relação a isto seja importante para sua sobrevivência assim como empresas de software ou de musica que hoje enfrentam com a Internet na distribuição de novas mídias ou até mesmo na criação de novas soluções melhores do que já existem hoje. Mesmo que isso não seja um fato preocupante no momento, quem tem a ganhar é o próprio espectador que tem pelo lado da indústria com novos produtos de qualidade como Wall.e da Pixar e Fung fu Panda da Dreamworks e também no mundo periférico a espera de ser descoberto como Big Buck Bunny e Elephants Dream.
A palavra terapia vem do grego therapeía , que significa tratamento. O termo tem sido amplamente utilizado: aromaterapia, musicoterapia, terapia com cristais, psicoterapia e assim por diante. Portanto me parece absolutamente válida a idéia de uma “cinematerapia”, com o mesmo intuito de qualquer outra terapia que é justamente curar. Remédios, exercícios e técnicas são diariamente utilizados a fim de melhorar a vida do ser humano. Mas há de se notar que todo o remédio mal administrado também pode trazer severas conseqüências. A música é considerada a arte mais pura dentre todas. Uma sinfonia de Beethoven, um noturno de Chopin, uma ária de ópera ou canção de uma banda de rock podem literalmente mudar o estado emocional de uma pessoa. Da mesma maneira, um filme tem grande poder de induzir a certos estados emocionais, e nem sempre os mais saudáveis. Um filme pode ter efeito devastador sobre um espectador desavisado. Na dose errada, aquilo que poderia ser um remédio se torna uma tempestade emocional. E a força das imagens, ligadas à sonoplastia e aos diálogos atinge a todos, em intensidade diferente, mas de uma forma ou de outra existe uma resposta do público. Existe um consenso no que tange ao malefício dos sentimentos reprimidos, e neste sentido o melhor caminho é liberá-los e assim se ver longe e virtualmente livre deles. Portanto quando alguém procura filmes violentos, ou filmes de ação com cenas de violência, pode estar através destes filmes, se purificando. O filósofo Aristóteles chamava isto de catarse. Na antiguidade grega, este filósofo chegava a recomendar que as pessoas assistissem às tragédias gregas nos teatros, pois quando o público vivenciava todas as dores, sofrimentos e horrores do herói grego, estava também se purgando; liberando suas próprias dores. Então o público saía do teatro aliviado. Mas o filme pode ser também uma explosão de prazer intenso, que tanto pode estar presente numa comédia ingênua da década de cinqüenta, quanto em filmes como O Senhor dos Anéis ou Batman , e assim por diante. O filme tem ainda a possibilidade de fazer com que o espectador entre em estados alterados, entre em êxtase, possa meditar assistindo-o. Um exemplo deste gênero de filme que nos coloca quase em transe, é a Trilogia QATSI , de Godfrey Reggio, composta por: Koyaanisqatsi, Powaqqatsi, Naqoyqatsi . Outro exemplo é 2001: A Space Odyssey . Há também filmes que podem causar verdadeiros traumas. Não é raro você ler ou escutar alguém dizer que levou o choque de sua vida ao assistir filmes como: Irreversível, Hannibal Lecter, A Escolha de Sofia, etc. No entanto, aquilo que choca tremendamente um, simplesmente não diz nada ao outro. O que move o ser humano? Por que, depois de tantos anos, as pessoas ainda reagem com horror à cena de Um Cão Andaluz em que Buñuel corta o olho da mulher com uma navalha? Em alguns o horror é intenso, e em outros não há nenhuma reação. Isto faz com que cheguemos à simples conclusão de que nossas lembranças, nosso arquivo pessoal nos faz reagir desta ou daquela forma diante desta ou daquela cena. Dado filme ou cena específica, ou ainda uma personagem podem ajudar a resolver questões emocionais escondidas, reprimidas e de difícil acesso. Uma cena ou diálogo pode desencadear traumas e também libertar espectadores de repressões com as quais ele vinha lutando. Também podem dar ao espectador verdadeiros momentos de pura iluminação, como se portas trancadas do inconsciente se abrissem; como se amarras se desfizessem. Existe portanto uma liberação. No entanto nossa mente funciona como a memória de um computador. Se você adicionar um arquivo com vírus ao seu computador, ele poderá causar danos à máquina. Da mesma forma se você adicionar imagens destrutivas e perturbadoras ao seu cérebro e não tiver condições de lidar com elas, também pode causar danos a si. A diferença é que um arquivo de computador pode ser deletado, mas uma memória no cérebro nem sempre é esquecida. Portanto é interessante que o espectador seja sempre seletivo, e escolha aquilo que pretende armazenar em sua mente. Não se deixe levar pelo turbilhão de imagens. Escolha apenas aquilo que realmente quer assistir. Imagens cinematográficas têm um poder titânico, e como tal, tanto pode erguer pontes, quanto pode destroçar templos. Neste caso, o templo em questão é a sua mente.
Texto original por: Léo – abril de 2006 (todos os direitos deste texto pertencem ao autor, e não deve ser utilizado ou citado sem sua permissão).