Alguns melhores filmes de 2016

Mas será que 2016 foi tão terrível assim? Talvez o mundo cinematográfico, tanto popular quanto alternativo, tenha mostrado marcantes olhares que certamente nos fará lembrar deste fatídico ano de forma mais saudosista. E pra provar isso, cá estou com uma proposta diferente da habitual retrospectiva com 10 melhores. A relação daqueles que chamaram a minha atenção foi dividida por categorias na intenção de incluir outros títulos, os quais supostamente ficariam de fora de uma lista geral. De qualquer forma, os critérios de avaliação continuam os mesmos das outras edições: longas apresentados em circuito nacional durante o período considerado, com qualidade técnica na maioria das vezes, mas que principalmente exerceram o papel de provocar, seja para refletir sobre a vida ou simplesmente entretê-la, segundo o pensamento de quem vos escreve.
É possível que sinta falta de algum nome dentro das listas propostas, já que não tive a oportunidade de ver tudo que fora lançado. Mas você pode indicar quais faltaram nos comentários. Quem sabe não faço uma repescagem?
Então vamos às principais categorias, e seus respectivos vencedores:

Troféu Brasil, não ignore. Isso é você

  • Aquarius (2016) - Direção e Roteiro de Kleber Mendonça Filho
  • Campo Grande (2015) - Direção de Sandra Kogut, Roteiro de Sandra Kogut e Felipe Sholl
  • Mãe Só Há Uma (2016) - Direção e Roteiro de Anna Muylaert
  • Mate-me Por favor (2015) - Direção e Roteiro de Anita Rocha da Silveira

Sem dúvida Aquarius estaria no topo de qualquer avaliação não só por tudo que representou no cenário no político, mas também pelo admirável talento de Kleber Mendonça Filho na direção e roteiro enxuto, feito sob medida para Sônia Braga impressionar os espectadores brasileiros depois de tanto tempo.
Apesar da ascensão pernambucana, o eixo Rio-São Paulo também se mantém discutindo os embates sociais com criatividade nos enredos dramáticos. Por um lado Anna Muylaert apresenta seu novo filme, em menos de um ano do sucesso de Que Horas ela Volta?, numa produção mais humilde, porém com energia suficiente para abordar a identidade de gênero como tema no destemido Mãe só há Uma. Do outro lado, há a visão de Campo Grande, por Sandra Kogut, ambientada numa cidade em construção para manter sua imagem ao sediar um grande evento enquanto se desenrola diversas interpretações do abandono. Além disso, a surpresa do arsenal brasileiro fica por conta da estreia de Anita Rocha da Silveira num longa que desafia contar os dilemas dos adolescentes num peculiar gênero macabro de Mate-me por Favor.

Trofeo Latinos, no lo ignore. Ese es usted

  • De Longe Te Observo (2015) - Desde Allá - Lorenzo Vigas Castes

De tanto ler opiniões contraditórias sobre o assunto, no início segundo semestre tive muita curiosidade em saber se o Leão de Ouro, maior prêmio do festival de Veneza, foi merecido para o venezuelano De Longe Te Observo de Lorenzo Vigas Castes. E só por mencioná-lo aqui, certamente fiquei a favor de seu mérito, porque, mesmo que sucinto, é um baita soco no estômago. Aí está outro exemplo de roteiro certeiro, mas assim como os outros países sul americanos, também continuam a abordar questões sociais e políticas como pano de fundo de magníficas tramas pessoais.

Troféu Notoriedade Além-Mar

  • Fique Comigo (2015) - Asphalte - Samuel Benchetrit
  • Elle (2016) - Paul Verhoeven
  • Desajustados (2015) - Fúsi - Dagur Kári
  • Mundos Opostos (2015) - Enas Allos Kosmos - Christopher Papakaliatis
  • Belos Sonhos (2016) - Fai bei sogni - Marco Bellocchio

Já no início do ano pude ver, sem grandes expectativas, uma modesta obra do francês Samuel Benchetrit com alta possibilidade de estar no topo da minha parada europeia simplesmente por atingir fundo um tema mais que familiar: a solidão da periferia urbana. O modo Short Cuts (1993) com múltiplas histórias de Fique Comigo tornou-se especial pelo requinte poético ao retratar a tentativa dos personagens em manter contato sob emocionantes desfechos. Vale a pena só pela pequena interpretação de Agripina por Isabelle Huppert. E como não fosse o bastante, o segundo lugar ela também faz o melhor de si no protagonismo de Elle numa densa confirmação da ambiguidade humana.
O alemão Desajustados, além de se aproximar do tema proposto por Fique Comigo, está no ranking por ser informalmente declarado o fofo do ano, enquanto o grego Mundos Opostos tardiamente chegou ao Brasil dramatizando a condição do país no conflito com os imigrantes. E não poderei deixar de lado o italiano Belos Sonhos pela sua melhor forma de representação da memória, mesmo que traumática.

Troféu Filosofia Oriental

  • As Montanhas Se Separam (2015) - Shan he gu ren - Zhangke Jia
  • Certo Agora, Errado Antes (2015) - Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da - Sang-soo Hong

Quando chega um momento em que sua intuição diz ter visto tudo, está na hora de explorar os olhares mais apurados do cinema. Mesmo que distantes física e culturalmente, sempre irão destacar algo em comum ao lado de cá do planeta. Pensando assim, inclui dois dramas que de fato evidenciam a sensibilidade oriental em situações que vivemos, mas nem sempre estamos atentos a perceber.
O primeiro deles é mais um trabalho do chinês Zhangke Jia, na sutileza em retratar a influência gradativa ocidental em seu país por três décadas, com direito a um breve exercício de previsão. Já o sul-coreano Certo Agora, Errado Antes, de Sang-soo Hong, também desafia à linguagem comum para falar de modo comum as possibilidades do encontro de duas pessoas comuns. E isso o torna incrível!

Troféu os Gloriosos Médio Porte

  • Spotlight: Segredos Revelados (2015) - Spotlight - Tom McCarthy
  • Carol (2015) - Carol - Todd Haynes
  • Capitão Fantástico (2016) - Captain Fantastic - Matt Ross
  • O Quarto de Jack (2015) - Room - Lenny Abrahamson

As produções americanas de estúdios “independentes” geralmente são aquelas que levam a sério todos os quesitos técnicos com qualidade para alcançar a notoriedade dos festivais e principalmente almejar prêmios oscarisáveis. Os dois primeiros são meus perfeitos favoritos pela grandiosa aula em tela grande no que se diz respeito ao roteiro, direção, direção de arte, elenco, trilha sonora, fotografia e ao mesmo tempo abalando seus espectadores, ou comove, respectivamente. Tanto que uma das metas de 2017 é vivenciar a última cena de Carol!
Não posso me esquecer de dois exemplos opostos que, cada um com sua provocação, estimulam o valor da liberdade. Capitão Fantástico, de Matt Moss, além de reverberar um remoto de estilo de vida, se comparando com nosso cotidiano, também recebe o troféu Sessão da Tarde do ano por ser o gostoso indie colorido em que não se vê o tempo passar enquanto o assiste. Por outro lado, em Quarto de Jack, a libertação é mais traumática de uma bela adaptação literária sobre o amor materno em situação extrema.

Troféu os Fantásticos Médio Porte

  • A Chegada (2016) - Arrival - Denis Villeneuve
  • A Bruxa (2015) - The Witch - Robert Eggers
  • Demônio de Neon (2016) - The Neon Demon - Nicolas Winding Refn

Existe vida extraterrena, ou oculta, ou superficialmente sanguinária lá fora, uma vez que a imaginação dos roteiristas não é só de drama. Primeiramente, como se já pudesse chamar de hábito, não há uma relação de melhores do ano sem a aparição de Denis Villeneuve. Este ano, mesmo que ele experimente um contexto Sci-fi, ainda sim algo real será filosofado, como faz jus à adaptação globalizada A Chegada. E como o cinema de gênero também vive do medo, nada melhor que relembrar do super cultuadíssimo e competente A Bruxa, cuja inegável atmosfera sinistra sobressai à demasiada venda da Universal para o público em geral.
Mas há ainda outro que dividiu as opiniões, e neste eu fico no meio. Minha expectativa de encontrar em Demônio de Neon o sucessor de Drive (2011) se dividiu entre o roteiro banal e uma experiência visual que não presenciava há tempos! Por isso de Nicolas Winding Refn, de quem espero um futuro de coisas boas, merece permanecer na lista.

Troféu Pipoca e Coca-Cola

  • Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016) - Fantastic Beasts and Where to Find Them - David Yates
  • Doutor Estranho (2016) - Doctor Strange - Scott Derrickson

Pra finalizar, os campeões de bilheteria mundial, porque são os responsáveis por fazer a maioria das pessoas a se apaixonar pela sétima arte, e quem sabe um incentivo para descobrir as outras categorias mencionadas. Pra considerar pelo menos um Marvel, nada como combater o mal da maneira não convencional de Doutor Estranho. A produção consegue fazer de seu universo paralelo algo visualmente deslumbrante e, enfim, ser mais um a dar sentido à tecnologia 3D!
No caso da Warner, mesmo sem destacar seus heróis, ainda deu tempo pra recorrer à uma de suas franquias mais valiosas em Animais Fantásticos e Onde Habitam. Assim surge o início uma aventura tão divertida, e quem sabe supera os anos de Harry Potter em Hogwarts.

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