Cinemacom apresenta: entretenimento da 7ma arte

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Coração Selvagem (1990)

Premiado em Cannes com palma de ouro, Coração Selvagem é mais um memorável, e insano, filme do diretor americano David Lynch, do qual usa seu jeito surrealista para contar a história de amor baseada na obra de Barry Gifford. Apesar de ser um romance, este longa não foge a regra em ter muita violência sanguinária, sexo intenso e falta de senso como grande parte de seus longas.
O que mais chama a atenção no filme são os vastos personagens peculiares que passam pelo caminho do par amoroso de Sailor e Lula, interpretados exageradamente por Nicolas Cage e Laura Dern. Ela marca sua presença como a queridinha do diretor depois de Sandy Williams em Veludo Azul (1986) enquanto ele faz um trabalho notável de sua carreira duvidosa. O elenco também conta com devida atenção às bizarras atuações de Willem Dafoe , o pesadelo materno por Diane Ladd caracterizada pela “bruxa do oeste” e até o mais sereno investigador interpretado por Harry Dean Stanton de Paris, Texas (1984). Todos eles expressam suas personalidades cheias de manias sempre ligadas à cultura popular. Exemplo disso é uma simples jaqueta de pele de cobra que raramente sai de cena até as referências declaradas ao Mágico de Oz.
Esta loucura cinematográfica tem várias características exclusivas de sua excentricidade como à alternância nos estilos musicais na trilha sonora que vai de melodias compostas pelo diretor, bandas de metal e, sem dúvida, Elvis Presley bem incluído no contexto pela voz do próprio Nicolas Cage. Para acompanhar essa mudança de ritmos a edição apresenta mundos de personagens paralelos, estranhas cenas que representam à imaginação e flashback dos protagonistas, além de imagens estáticas quase sem sentido.
A fantasia e a realidade se misturam na mente de pessoas perturbadas na busca ansiosa pela felicidade, mas com tempo o suficiente para se refletir sobre o passado e realizar as mais perversas confissões. É um belo ponto de vista irônico sobre um conto de fadas improvisado por um ambiente nada convencional onde os quartos cheiram vômito mas o amor prevalece sem limites.

Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011)

Uma produção inglesa descreve a família ideal americana envolvida num tema muito usado pelo cinema em filmes de terror ou suspense, mas desta vez o drama é muito sério sem deixar de ser assustador. Baseado no best-seller homônimo da jornalista americana Lionel Shriver, Precisamos Falar Sobre o Kevin fala sobre a vida de um psicopata antes de seu nascimento até a adolescência, mas com o ponto de vista de sua mãe. A protagonista vivencia a crueldade de seu filho enquanto carrega consigo pesados sentimentos de medo e culpa.
A trama é conduzida pela alternância das cenas de uma confusa tensão psicológica sobre Eva, difícil personagem atuada magnificamente por Tilda Swinton. Ao seu lado está John C. Reilly representando o pai que não percebe algo de estranho em seu filho, e conseqüentemente negligencia qualquer evento que perturbe sua concepção de família feliz. A soma do comportamento deste casal com o título do longa nos sugere a refletir sobre a situação tratada.
Um contexto atemporal e imagens sem foco aos poucos revelam o ato final de um quebra-cabeça pessoal. Para isso, existem muitas referências entre as cenas, principalmente pela distribuição da cor vermelha para reativar a memória materna um tanto infeliz em sua peculiar relação com o filho. De um lado ela se arrepende por conceber uma criança e eliminar a oportunidade de voltar a viajar pelo mundo. A partir daí se desenvolve sua dúvida por amá-lo ou odiá-lo diante de suas brigas. Do outro lado ele não cresce como um garoto comum, mas aos poucos mostra sua falta de sensibilidade e inteligência direcionada à sua obsessão pela mãe. Em outro tempo o enredo se destaca por mostrar como a sociedade reage à mulher que deu vida a um assassino.
Este longa é o primeiro notável, e surpreendente, dirigido e escrito pela escocesa Lynne Ramsay. A maneira como trabalha sobre este roteiro adaptado parece com os de Gus Van Sant, ainda mais se comparado a Elefante (2003), do qual também trata o mesmo tema. Ela consegue transformar a crueldade de uma criança tão insuportável a ponto de causar desconforto durante toda sua duração. De certa forma, é possível que torça para que ele termine antes, mesmo que fique diretamente envolvido com a história.

Drive (2011)

Como contar a história de um solitário mecânico sem que seu vício pelos carros seja mais envolvente que sua própria vida? Foi com base no livro do americano James Sallis publicado em 2005 que a produção independente Drive se desprende dos filmes de ação padrão para focar na simplicidade de uma trama cuja tensão é gradativa na medida em que seu protagonista se desfaz de seu cotidiano. Mesmo que seus primeiros minutos já valham por assistir por completo, o restante está nas mãos de suas perseguições e do romance tímido com a garota que mora ao lado.
O grande centro das atenções está na atuação do personagem sem nome e sem passado feito por Ryan Gosling, do qual garante mais um destaque em sua carreira em ascensão. Como um herói de filme western, raramente fala, quanto mais expressa seus sentimentos, porém age com determinação e destreza ao praticar seu senso ético de samaritano. Ele se apaixona não somente por sua vizinha Irene, mas pela idéia de família que traz consigo. Interpretada por Carey Mulligan de Educação (2009), ela não chega ser tão ilustre quanto o rapaz, mas de qualquer forma, é responsável por fazer as coisas saírem dos trilhos.
O propósito do filme é mostrar o heroísmo contemporâneo com competência em seus conceitos técnicos sem apegar a potência de motores. Movimentos de câmeras por todos os ângulos em fotografias arrojadas e principalmente a qualidade sonora indicada ao Oscar são pontos, que somados à alma de seu enredo, o torna mais perceptível no meio de tantos outros do mesmo gênero. Além disso, tudo é acompanhado por uma trilha sonora eletrônica ideal à imagem estilosa que o longa se dedica.
Criador de Pusher, trilogia que desenvolve o tema da criminalidade em seu país de origem, o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn faz de Drive seu filme mais notável pelo mundo. Nele pondera os gêneros entre o drama silencioso inicial que aos poucos é substituído pela violência física comparável a longas Sul-Coreanos. Mesmo assim, é um filme interessante no ponto de vista técnico e entretém de forma exclusiva às produções de sucesso de seu tempo.

Um Conto Chinês - Un cuento chino (2011)

Um pacato vendedor de uma loja de ferragens localizada na periferia de Buenos Aires terá sua vida metódica abalada após seu encontro com um chinês perdido pela cidade. O contexto geral soa estranho, mas esta trama serve como um bom exemplo de roteiro capaz desenvolver sua ficção a partir de qualquer idéia, mesmo que esta seja uma notícia inacreditável.
Sem surpresas do longa ter Ricardo Darín como protagonista, seu personagem genioso alterna o afeto dos espectadores através seu terrível dilema em ajudar um pobre coitado interpretado por Ignacio Huang, do qual já é bem acostumado em participar de produções latinas. A monotonia solitária é substituída por uma divertida e complexa comunicação entre ambos, e por consequência, mantém a improvisação durante todo enredo por gestos e instintos.
A bela fotografia fica por conta dos enquadramentos nos simples cenários periféricos e os efeitos visuais são precários, porém dão um certo charme nos momentos de imaginação surreal e flashbacks para representar a guerra das Malvinas. Além disso, a trilha sonora aproxima o trabalho de Sebastián Borensztein às produções européias, assim como na maioria do filmes argentinos contemporâneos. De família ligada à TV, Borensztein merece atenção por apresentar seu primeiro trabalho escrito e dirigido para cinema e bater o recorde do mais assistido no ano de 2011 em seu país de origem.
Pra ser o sucesso que conseguiu chegar a outros países foi necessário aplicar criatividade sobre um fato inusitado sem utilizar recursos apelativos. É apenas uma brincadeira de dar várias possibilidades repentinas a uma pessoa que preserva sua vida inerte por muitos anos.

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